HISTÓRIA DE JORNALISTA

posted by zerodrigues in:

Lembrei, neste final de semana, de antigas histórias que meu velho pai contava - jornalista cheio de histórias de redações - a respeito de certos companheiros de trabalho, alguns dos quais cheguei a conhecer pessoalmente. Motivo da lembrança: matéria sob o título Os Desaparecidos que me chegou às mãos, assinada por Themistocles de Castro e Silva e publicada dia 15 último, no jornal O Povo, Ceará. Transcrevo, no correr desta postagem, alguns trechos do artigo:

"A pessoa mais indicada para falar sobre os "desaparecidos", no lançamento do livro da secretaria dos Direitos Humanos, é hoje figura de influência na equipe de Lula. Trata-se de Franklin Martins, chefe do setor de imprensa, mas leva nome de ministro..."

"... Franklin Martins, [foi]
o redator do Manifesto da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário de Outubro (MR-8), divulgado nos jornais, rádios e televisão como condição "b" para libertação do embaixador dos Estados Unidos, Burke Elbrick, seqüestrado em setembro de 1969. Aqui, no O POVO, foi publicado no dia 6.9.69, com o título 'O manifesto dos terroristas' ..."

Seus dois primeiros parágrafos - do manifesto escrito pelo hoje "ministro" Franklin Martins, vale lembrar, e que termina com a seguinte advertência: "Agora, é olho por olho, dente por dente" - diziam:

"Ao povo brasileiro - Grupos revolucionários detiveram hoje o sr. Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos, levando-o para algum lugar do país, onde o mantêm preso. Este ato não é um episódio isolado. Ele se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo: assaltos a bancos, nos quais se arrecadam fundos para a revolução, tomando de volta o que os banqueiros tomam do povo e de seus empregados; ocupação de quartéis e delegacias, onde se conseguem armas e munições para a luta pela derrubada da ditadura; invasões de presídios, quando se libertam revolucionários, para devolvê-los à luta do povo; explosões de prédios que simbolizam a opressão; e o justiçamento de carrascos e torturadores.

Na verdade, o rapto do embaixador é apenas mais um ato da guerra revolucionária, que avança a cada dia e que ainda este ano iniciará sua etapa de guerrilha rural..."


Acredita Themistocles, no que faço coro, que
"... ninguém melhor do que Franklin Martins, que vive ao lado de Lula, para saber quem foi para a 'guerra revolucionária' e levado por quem, inclusive a guerrilha rural do Araguaia, coordenada pelo PC do B de João Amazonas, que ficou em São Paulo, deixando sem orientação os jovens que seduziu   [...]   Se foi uma guerra, na expressão deles próprios, desde quando o lado vencedor tem a missão de procurar desaparecidos do lado perdedor? Quem selecionou o pessoal dos terroristas é que deve saber e conhecer todos eles e onde se encontravam. José Genoíno, por exemplo, foi um dos presos pelo Exército. Se um dos principais não sofreu nada (e ainda recebeu R$ 100 mil de indenização), por que o Exército iria preferir os insignificantes para fazê-los desaparecer? 

Dizia o manifesto em seu final que "...A vida e a morte do embaixador Elbrick estão nas mãos da ditadura. Se ela atender às ... exigências, o senhor Elbrick será libertado. Caso contrário, seremos obrigados a cumprir a Justiça Revolucionária."

X X X

Das mais antigas, entre as histórias que meu pai contava, era uma que envolvia o seu companheiro de redação e depois senador, jornalista Mario Martins - antigo aliado de Carlos Lacerda na UDN [partido que nosso primeiro mandatário, hoje, colocaria entre os "da zelite"] -, à época em que foi vítima da ditadura getulista.

Preso pelos homens de Getúlio, acusado de simpatizante do Partido Comunista [há quem garanta que, além de simpatizante, era membro efetivo e importante], Mario Martins, com outros companheiros, teria cumprido seu tempo de preso político com uma enxada na mão, plantando legumes e cantando o Hino Nacional. Objetivo: esquecer as motivações partidárias que o levaram à cadeia e afastá-lo das doutrinas perniciosas que punham em risco a segurança do país.

Pois bem, cara leitora, Franklin Martins [o do manifesto] é filho de Mario Martins [que conheci e com quem convivi, garoto ainda, na redação do jornal em que meu pai trabalhava], o ex-senador udenista e, como ele, jornalista. Talvez o pai não lhe tenha contado [se verdadeira for, e acredito que sim] a história da enxada com o Hino Nacional. Se contou - que pena! - o filho não entendeu nada.

E, pior que isso, passou de aprendiz de guerrilheiro a ministro sem pasta...

Add Comment
Comments:

Criar um Blog-BR - Meu Blog-BR - Denuncie - Visitar outro Blog